Valor Econômico – 30/06/2009
O Brasil ficou conhecido no mercado mundial de produtos audiovisuais como um grande exportador de telenovelas. Grandes sucessos, como “O Clone” e “Terra Nostra”, da Rede Globo e “Imigrantes”, da Rede Bandeirantes foram exibidos em diversos países.
Esse formato de exportação de novelas reinou sozinho por décadas. No entanto, a criatividade do produtor de conteúdo brasileiro acabou por ultrapassar o modelo já conhecido de ficções exibidas no horário nobre das grandes emissoras. Há cerca de quatro anos, surgiu o Brazilian TV Producers (BTVP), um projeto com o objetivo de mostrar que existem outros tipos de conteúdo que o profissional brasileiro sabe bem como produzir, como filmes, séries e documentários.
A iniciativa partiu da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão (ABPI-TV), em parceria com a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). De 2004 para cá, são mais de 34 produções brasileiras realizadas em coprodução com companhias estrangeiras, exportadas para o mundo, totalizando um montante de US$ 51 milhões.
BossaNovaFilms, Mixer e Prodigo fazem parte do grupo de produtoras que passaram a enxergar a internacionalização de seus projetos como uma saída para um mercado interno um tanto quanto restrito. O Brasil apresenta peculiaridades no âmbito de produção para televisão. Diferente da maioria dos países, as emissoras têm como cultura produzir 80% – ou até mais – da sua grade de programação. “A estagnação interna gerou uma demanda por buscar novos mercados”, diz Eliana Russi, gerente executiva do BTVP.
O foco da empreitada é garantir que produtores independentes tenham chances de exibir seus produtos em outros continentes. O intercâmbio de ideias, projetos e contatos é feito através de constantes visitas às principais feiras de conteúdo do mundo. “Há quatro anos, o estande do Brasil nos eventos era visto como o da Jamaica [mercado com poucos recursos para produção televisiva]. Conquistamos mais espaço a cada ano que passa”, afirma Eliana.
De acordo com Denise Gomes, sócia e produtora executiva da BossaNovaFilms, a exposição de trabalhos nos diversos eventos de conteúdo é fundamental para que o Brasil conquiste seu espaço, uma vez que sempre esteve distante do mercado internacional. “Ainda somos insignificantes, mas já é um caminho”, diz.
A produtora, que teve uma série exibida mundialmente pelo canal NatGeo, em 2008, chamada de “Across the Amazon”, já está fechando mais um negócio com a emissora para este ano. Além disso, a companhia trabalhou em coprodução com o Discovery Channel do Canadá, resultando em um programa, o “Daily Planet Goes to Brazil”, que foi distribuído para o mundo todo. Segundo Denise, mais dois projetos ainda inéditos no Brasil serão concluídos este ano, uma série sobre a Mata Atlântica, “The Atlantic Rain Forest”, e um documentário batizado de “Street of Encounters”.
Os produtores acreditam que o momento é muito propício para séries e documentários que retratem a realidade brasileira, como esses dois casos da BossaNova. A Mixer acaba de vender para sete países um filme que fala sobre os 63 anos de invenção do biquíni, o “Bikini Revolution”. Outro projeto que conta o dia a dia dentro dos condomínios de luxo em São Paulo, o “Do Lado de Dentro do Muro”, que foi feito em coprodução com o canal franco-alemão ARTE/ZDL, deve ser distribuído para vários mercados.
Gil Ribeiro, diretor da Mixer, conta que sete projetos que já tem exibição internacional garantida estão em andamento. Além disso, estão exportando um formato criado no Brasil para outros países, o TNT+Filme, uma revista eletrônica sobre cinema e comportamento.
A Prodigo também pegou carona no momento oportuno e teve dois projetos que falam sobre temas brasileiros exportados: os documentários “Motoboys” e “Haiti, o Dia em que o Brasil Esteve Aqui”.
Nos últimos meses a produtora trabalhou a quatro mãos com o NatGeo em uma série de 13 episódios chamada “O Guia”. “Esse é um projeto que partiu de uma encomenda do canal e acabou virando uma série original da Prodigo”, conta Adriano Civita, executivo da produtora.
Esse volume de produtos independentes não elimina as produções de emissoras que estão viajando pelo mundo. Pelo contrário, a Rede Bandeirantes acaba de vender duas novelas em formato digital, “Água na Boca” e “Dance, Dance, Dance”, através da distribuidora Telemundo. A Rede Globo, também anunciou há pouco, na edição de 3 de junho do Valor, seu segundo acordo para coprodução internacional, por meio do qual vai assessorar TVs de outros países a produzir novelas que tiveram êxito no Brasil.
As emissoras de TV têm como recurso importante o fato de poderem “testar” seus produtos antes de exportar. Já as produtoras devem arriscar, uma vez que não contam com exibição garantida. Por outro lado, elas têm como principal pilar as leis de incentivo fiscal e editais que apareceram nos últimos anos e ajudaram a impulsionar suas produções e, de quebra, lhes deram uma vantagem em relação a recursos para as produções. Um fato que os dois mercados, tanto de emissoras como de produtores independentes, perceberam é que é preciso encarar a geração de conteúdo como uma indústria com forte potencial para exportação.
Manuela Rahal